Entenda por que a arara-azul-grande voltou à lista de espécies ameaçadas de extinção
11/07/2026
(Foto: Reprodução) Entenda por que a arara-azul-grande voltou à lista de espécies ameaçadas de extinção
Roberta Kraemer
Após mais de uma década fora da lista nacional de espécies ameaçadas, a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) voltou a ser classificada como Vulnerável à Extinção pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
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A reclassificação, divulgada em junho, está diretamente relacionada aos impactos dos grandes incêndios no Pantanal, mas também reflete uma combinação de fatores que vêm comprometendo a sobrevivência da espécie nos últimos anos.
Segundo a bióloga Neiva Guedes, presidente e fundadora do Instituto Arara Azul, dados de monitoramento apontam redução da população, alterações no habitat e queda no sucesso reprodutivo das aves após as grandes queimadas registradas no bioma.
"Nós tivemos um grupo monitorado há mais de 20 anos que reduziu cerca de 60% dos indivíduos que ocupavam um dormitório tradicional há mais de 60 anos. Houve uma redução significativa da sobrevivência dos indivíduos e do sucesso reprodutivo", afirma.
Ela explica que a decisão de recolocar a espécie na categoria Vulnerável não foi motivada por um único indicador, mas pela análise conjunta de diferentes fatores.
"Foi um conjunto de evidências: a redução de indivíduos, a perda e as alterações no habitat e, principalmente, os efeitos dos grandes incêndios sobre a reprodução das araras-azuis", diz.
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Sobrevivência depende de poucos recursos
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Roberta Kraemer
A arara-azul-grande é considerada uma espécie altamente especializada. Na natureza, depende de poucas espécies vegetais para se alimentar e de árvores específicas para se reproduzir.
Essa característica faz com que seja especialmente sensível às mudanças provocadas pelo fogo. Quando os incêndios atingem o Pantanal, não apenas ninhos, ovos e filhotes são perdidos, mas também áreas essenciais para alimentação e abrigo.
Além dos impactos imediatos, os efeitos podem persistir por anos.
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O monitoramento realizado pelo Instituto Arara Azul aponta diminuição do número de casais reprodutivos e menor sucesso na criação de filhotes após os grandes incêndios registrados no bioma.
Outro fator que preocupa os pesquisadores é o tempo necessário para a reposição da população. A arara-azul-grande leva entre sete e nove anos para atingir a maturidade reprodutiva, o que torna a recuperação mais lenta diante de eventos extremos.
Avanços não foram perdidos
Mesmo com o retorno da espécie à lista de ameaçadas, Neiva Guedes destaca que os resultados obtidos nas últimas décadas de conservação continuam sendo fundamentais para sua sobrevivência.
O trabalho realizado desde 1990, com monitoramento de ninhos, instalação de ninhos artificiais e manejo de áreas reprodutivas, foi decisivo para que a arara-azul-grande deixasse a lista de espécies ameaçadas em 2014.
"Não significa que todo o avanço foi perdido. Muito pelo contrário. A situação só não é mais crítica porque houve um trabalho ininterrupto de conservação durante todos esses anos", afirma.
Segundo Neiva, sem essas ações a espécie poderia estar atualmente em uma categoria de ameaça ainda mais grave.
O que muda a partir de agora?
Entenda por que a arara-azul-grande voltou à lista de espécies ameaçadas de extinção
Roberta Kraemer
Na avaliação da fundadora do Instituto Arara Azul, a nova classificação deve ampliar a atenção dedicada à espécie por órgãos públicos, pesquisadores e pela sociedade.
"O retorno à lista chama a atenção das autoridades, da legislação, dos governantes, da imprensa e das pessoas em geral para uma espécie que precisa de cuidados especiais", explica.
Entre as medidas consideradas prioritárias estão o fortalecimento do combate aos incêndios, a proteção do habitat, o enfrentamento ao tráfico de animais silvestres e a redução dos impactos causados pelo uso de agrotóxicos nas áreas onde a espécie ocorre.
A presidente do Instituto também defende o fortalecimento da educação ambiental e da participação da população em iniciativas de ciência cidadã voltadas ao monitoramento e à conservação da biodiversidade.
Incêndios continuam sendo a principal ameaça
Registro de incêndio florestal avançando sobre o Pantanal na região de Miranda (MS) faz parte da série 'Apocalypse', do fotojornalista Lalo de Almeida, e aparece entre as imagens finalistas na categoria profissional Paisagem
Lalo de Almeida/2025 Sony World Photography Awards
Embora a perda de habitat, o tráfico de animais e o uso de agrotóxicos também preocupem os pesquisadores, os incêndios seguem sendo o principal risco para a arara-azul-grande. A preocupação é ainda maior diante das previsões climáticas para os próximos meses.
"Considerando o que se projeta para o El Niño, a situação é extremamente preocupante. Já tivemos um cenário drástico recentemente e a previsão é que possa piorar", alerta Neiva Guedes.
Para ela, proteger a arara-azul-grande significa também proteger os ambientes dos quais a espécie depende para sobreviver.
"Sem as árvores utilizadas para reprodução e sem os recursos alimentares de que necessita, ela simplesmente não consegue se manter na natureza", conclui.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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